sexta-feira, 3 de junho de 2011

Artigo

1. O DESTINO DE ROMA, O DESTINO DOS HOMENS: EXEMPLA EDIFICANTES EM TITO LÍVIO[1]

Marinalva Vilar de Lima

      Da articulação que constrói entre o destino de Roma e o destino dos homens é que percebemos resultar o mosaico discursivo exemplar de Tito Lívio. Escrita que projeta a edificação de modelos cívicos para os quais seus contemporâneos devem direcionar o olhar e a eles promover eco sonante no cenário da Roma augustana. Com esse intuito elabora uma obra que retroage aos tempos de fundação da cidade e vai até o inicio da era imperial, tomando os modelos de uirtus como fios de ligação. Eixo discursivo articulado com tamanha força retórica que leva o leitor moderno a perder de vista as perspectivas espaço-temporal a que destina grande importância. 
     É em meio a um momento de grande turbulência da história romana à época republicana, em que a ameaça do retorno eminente de mais um enfrentamento entre Roma e Veios, cidade com quem é alimentada uma antiga contenda, que Lívio localiza a entrada em cena de Marco Fúrio Camilo, então vejamos:



Em Roma os boatos eram ainda mais alarmantes, acreditando-se que o acampamento de Veios já fora tomado e uma parte dos inimigos avançava em fileiras cerradas em direção à cidade. Todos se precipitaram para as muralhas. (...) 

(...) deveria cumprir-se o destino dos veienses. O chefe indicado pelo destino para destruir                                                       aquela cidade e salvar sua pátria foi o ditador Marco Fúrio Camilo (...). A mudança de general modificava toda a situação: renovaram-se as esperanças, renovou-se o estado de espírito dos soldados. Em Roma também a sorte parecia ter mudado. Camilo começou por punir, segundo as leis militares, todos aqueles que haviam desertado de Veios. Fez ver aos soldados a existência de algo mais temível do que o inimigo. Após ter fixado a data para o recrutamento, voltou a Veios para reavivar a coragem das tropas, e de regresso a Roma realizou o alistamento do novo exército sem que ninguém se recusasse a prestar serviço. Até mesmo a juventude estrangeira – latinos e hérnicos – veio oferecer sua ajuda naquela guerra. O ditador agradeceu-lhes em pleno Senado e concluiu todos os preparativos para a campanha. Por um senadoconsulto fez o voto de celebrar grandes jogos quando Veios fosse capturada, e de restaurar e consagrar o templo de Mater Matuta, consagrado outrora por Sérvio Túlio[2].

Situação discursiva em que Lívio vai articular em um mesmo homem grandeza de liderança e respeito à tradição religiosa no cumprimento de seu próprio destino e, por


[1] Artigo publicado em LIMA, Marinalva Vilar de; CORDÃO, Michelly P. S.; (orgs.). Cadernos didáticos: Estudos clássicos (Roma). Ano II, V. II, N° I, Campina Grande: EDUFCG, 2011.
[2] Todas as citações a obra de Tito Lívio foram retiradas da tradução de Paulo Matos Peixoto. Além dessa tradução, também, foi consultada a tradução da Gredos, constante nas referências bibliográficas.
TITO LÍVIO. História de Roma (ab urbe condita libri), trad.: Paulo Matos Peixoto. São Paulo: Paumape, 1989, LIVRO V, caps.18 e 19..


conseguinte, dos destinos de Véios e de Roma. Cidades cujos destinos se cruzam, necessariamente, pela via da oposição: “Assim se deu a queda de Veios, uma das mais opulentas cidades etruscas, cuja grandeza se evidenciou mesmo em sua última derrota[3]”.  O ditador é apresentado em completa consonância com as atitudes das matronas, dadas a conhecer por Lívio como mantenedoras da purificação da cidade, conforme descrição que faz da situação e da participação dessas:
 
As mães de família, que o pânico generalizado arrancara de suas casas, faziam súplicas nos templos e dirigiam preces aos deuses para que afastassem a desgraça de suas casas, dos templos, das muralhas, e que fizessem recair sobre Veios aquela ameaça, uma vez que as cerimônias religiosas haviam sido restabelecidas em conformidade com os ritos, e os prodígios, expiados[4].

       A edificação de valores que Lívio enxerga enquanto relegados ao desuso por seus contemporâneos é o que, ao nosso ver, tonifica as muitas narrativas que constrói em sua interferência no passado, fazendo (re)empregos e deslocamentos de histórias conservadas pela tradição na costura discursiva que cinge para seus contemporâneos. Discurso que resulta de cortes, escolhas e recusas de modelos de comportamentos e costumes, adotados pelos ancestrais romanos desses que vivem a Roma augustana.
      É para os cidadãos de uma Roma expandida[5], com graves dificuldades em manter os fios de ligação entre mundos extremamente distintos, que Lívio endereça uma escritura que pretende fazer eco, não apenas no centro do império, mas até onde se diga existir Roma.
      Dessa Roma da experiência escriturística e histórica do historiador oriundo da cidade de Pádua, então província romana, Tito Lívio, Pierre Grimal[6] nos informa que era posto em prática um movimento restaurador enfeixado por Otávio Augusto. Momento da história romana que diz ter a particularidade de merecer ser nomeado de “o século de Augusto” pela forma como o princeps vai se colocar e ser visualizado:



[3] TITO LÍVIO, LIVRO V, cap. 22.
[4] TITO LÍVIO, LIVRO V, cap.18.
[5] Acerca dos movimentos de expansão territorial, das conquistas realizadas pelos romanos e para outras informações sobre a sociedade romana de fins da república e da época imperial, aqui veiculadas, consultar: PETIT, Paul. A paz romana, trad.: João Pedro Mendes, São Paulo: Pioneira; EDUSP, 1989; CORASSIN, Maria Luiza. Sociedade e política na Roma Antiga, São Paulo: Atual, 2001; CANFORA, Luciano. Júlio César: o ditador democrático, trad.: Antônio da Silveira Mendonça, São Paulo: Estação liberdade, 2002; GRIMAL, Pierre. A civilização romana, Lisboa: Edições 70, 1993; GRIMAL, Pierre. O século de augusto, Lisboa: edições 70,1997; dentre outras indicações constantes nas referências bibliográficas.
[6] GRIMAL, Pierre. op.cit.1997.



Octávio, filho de César e adoptado como Júlio César Octaviano, adorado pela arraia miúda como um deus, era o seu herdeiro, tinha que ser forçosamente um deus. Não diziam os mitos que Eneias, príncipe troiano, aportara às costas do Lavínio e se estabelecera no Lácio? Não fora Iúlo, filho de Eneias, o antepassado da gens Iulia? Não descendia também Rômulo, filho de um deus, de Iúlo? E não fora o próprio Eneias filho de uma deusa, Vênus, amada pelos romanos? E os augúrios e um cometa do céu não haviam dado o sinal? Não era convicção generalizada entre as forças vivas da sociedade e da cultura de então que uma nova era estaria por chegar, uma nova Idade  de Ouro, uma era de paz e prosperidade sem igual para o Universo?[7]

      Augusto se impõe no cenário da história de Roma, pondo em prática um projeto político que marcará os mais distintos universos da vida romana do inicio do império. Portanto:

A impressão que nos fica de Augusto é de admiração. Político de gênio, grande e meticuloso estratego e, sobretudo, homem de acção. Ambicioso. Desejava o poder. Mas não para dele se servir como o príncipe de Maquiavel. Fica-nos a idéia de que acreditava sinceramente ter sido designado para uma missão civilizadora especial e que era de raça divina[8].

      Por outro lado, Augusto herda uma Roma caótica e a organiza, pacifica, unifica, pondo em efetivação os desejos dos mais distintos segmentos sociais. Resultado atingido a partir da articulação de várias forças. Nesse sentido, visualizamos um exercício político que vai para além do uso da força bruta, recolocando na ordem do dia valores espirituais fundamentais no universo de mentalidade romana.
      Sobre a participação, ou identificação, de Tito Lívio com os rumos dados pela política augustana para a cidade, Grimal[9] considera que: “Tito Lívio, sem dúvida, servia Augusto, mas apenas na medida em que este servia essa pátria profundamente amada”.
      Portanto, sonante com o ideais restauradores da época augustana, Lívio quer fazer vir à tona uma Roma que se encontra encoberta, guardada em um passado que a tradição conservou e a qual quer fazer despertar como sombra edificadora. O discurso liviano é visto como sonante com a produção discursiva levada à efeito pelo círculo literário patrocinado pelo aristocrata Mecenas. 
     É uma Roma cadaverizada que Tito Lívio pretende preencher com os tecidos, músculos, articulações, vasos, artérias e sangue que localiza como sobreviventes no mimetismo da tradição. Escritura que intenta, tanto quanto em um Heródoto, por exemplo, dar o estatuto de revificadora da experiência, ainda que de forma e para


[7] GRIMAL, Pierre. op.cit.1997, pp.10-11.
[8]Idem, ibidem, p.11.
[9] Idem, ibidem, p.78.


objetivos diferentes. Se para Heródoto há como preocupação maior a elaboração de uma memória que impeça o esquecimento dos feitos do passado, para Lívio o esforço de mimetismo tem uma intencionalidade didático-pedagógica, visto que pretende trazer à cena experiências de romanos que tiveram como preocupação maior o cumprir do destino de Roma, mesmo que em detrimento de seus interesses pessoais. Retomando o exemplo de Marco Fúrio Camilo, eis como Lívio o apresenta após a vitória ensejada sobre Veios:

A chegada do ditador foi festejada por todas as ordens, que lhe foram ao encontro, uma multidão como nunca se vira antes para qualquer de seus antecessores. O triunfo ultrapassou em esplendor tudo o que se costumava ver em tais manifestações. Quando Camilo entrou na cidade em seu carro puxado por cavalos brancos, todos os olhares se voltaram para ele. Não parecia um simples cidadão, nem mesmo um ser humano, dizia-se. Rivalizando com Júpiter e com o Sol, o ditador despertava os escrúpulos religiosos. Por isso, esse triunfo foi mais brilhante que bem acolhido.
Em seguida, Camilo designou um local no Aventino para o templo de Juno Rainha, consagrou o de Mater Matuta e, após ter concluído esses ritos sagrados e profanos, abdicou da ditadura[10].

      Ideal personalístico que Lívio objetiva incutir em seus leitores. O espetáculo público, a Camilo destinado, não lhe cega a ponto de querer permanecer com o status que lhe dera a ditadura, abdicando do cargo tranqüilamente. Desse modo é que Lívio procura encarnar modelos de civismo mimetizados pela tradição, cuidando para respeitá-la, apenas naquilo que vem a corroborar sua intencionalidade.  
      A história, como experiência passível de ser recuperada em benefício de épocas póstumas, já anunciada por Isócrates[11] é a que vai ser ensejada por Lívio, na medida em que retorna ao passado pra trazer de lá experiências que possam ensinar, educar, remodelar as maneiras de se relacionar com o presente.  Percepção que, conforme análise de Hartog[12], remonta a experiência helênica – de Atenas - do declínio da polis :

(...) Atenas, para fazer face às dificuldades do presente, se volta para o passado. A experiência dolorosa das mudanças (metabolai) – a derrota e o que se seguiu – leva a invocar o passado e incita a imitá-lo. É daí que o tema da história como fornecedora de exemplos irá tomar seu impulso duradouro.

      Se Lívio anuncia seu ideário em uma Roma pós crise, provocada pela guerra civil do século II a.c., que resultou na instalação do modelo político em que três


[10] TITO LÍVIO. LIVRO V, Cap.23.
[11] Isócrates, apud HARTOG, François (org.). A história de Homero a santo agostinho, trad.: Jacyntho Lins Brandão, Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2001, p.14.
[12]Idem, ibidem, p.14.


cidadãos compartilhavam a experiência do governo (I triunvirato e II triunvirato), o faz dialogando com uma tradição helênica que desloca em favor de seus intentos cívicos. É a defesa de uma Roma sob projeto restaurador augustano que dá “liga” a estrutura discursiva elaborada por Lívio.
      A título de síntese, considerando a obra de Lívio em seu conjunto, é possível perceber que ele estabeleceu uma escritura em que apresenta os primeiros anos da formação de Roma (o período dos reis), para em seguida apresentar à larga os anos de consolidação do modelo Institucional Romano (o período Republicano), seguidos da narrativa do inicio do império, até 9 d.C. Exercício que pôs em prática em seus 142 livros, alcançando-nos apenas 35. Modelo prosador que se afasta dos prosadores mais imediatamente próximos a ele, visto que optavam por recortes mais pontuais e definidos, narrando uma guerra ou acontecido específico e o aproxima das produções com caráter anais, em que se relatava ano após ano os acontecimentos. A partir dessa escolha vai discorrer sobre a história de Roma desde a fundação até sua época. No entanto, é perceptível em Lívio que a narrativa do passado se dá a partir da clara conexão com o presente, articulação que reconhece e reivindica[13].
        Com Tito Lívio, pensar a história romana de fim do século I a.C. e princípios do século I d.C. parece ser um exercício em que está na decadência dos valores humanos o espelho para onde o destino da cidade reflexionou. Situação que serve de palco para a polifonia interpretativa com que pretende admoestar seus contemporâneos. Ergue-se enquanto voz que pretende recolocar a cidade no destino que a ela cabe, através de uma escrita prenhe de exempla que lhe alcança e que viabiliza o alcance de seus contemporâneos pelo exercício da anamnesis.  Se aos indivíduos (de épocas que distam no tempo) estabelece um lugar de importância o faz na medida em que suas ações permitam-lhe – a Lívio - colocar em cena situações de que faz uso pedagógico, tanto por sua grandeza de realização, quanto por sua ruptura com o ideal de uirtus.
      Preocupação que lhe permite costurar narrativas de situações que ultrapassam os limites que se impunham aos indivíduos por suas condições sociais e, ou, de gênero. Então vejamos:

Foi então que as sabinas, cujo ultraje fora o motivo da guerra, com os cabelos soltos e vestes rasgadas, vencendo na desgraça a timidez natural do sexo, ousaram lançar-se em meio a uma saraivada de dardos e interpor-se entre os combatentes, para fazer cessar as hostilidades e o ódio. Suplicavam ora aos pais, ora aos


[13] HARTOG, François (org.). op.cit. 2001, p.18.
maridos, que não cometessem um crime abominável cobrindo-se com o sangue de um sogro ou de um genro; que não manchassem com aquele delito as crianças que elas haviam posto no mundo, seus descendentes, netos de uns, filhos de outros: ‘se este parentesco, se este casamento vos desagradam, é contra nós que se deve voltar vossa cólera. Nós é que somos a causa da guerra, dos ferimentos e da morte de nossos maridos e de nossos pais. Antes de morrer do que sobrevivermos a uns e outros, ficando viúvas e órfãs!’(...). Desse modo, a cidade duplicou seu poderio[14].


      Excerto em que vemos Lívio tomar como conclusiva, para uma disputa entre romanos e sabinos, as atitudes de um gênero que, ele próprio, apresenta como limitado por sua “timidez natural”. Autorizando, nessa passagem e em muitas outras, uma leitura do feminino que não coadunaria  com os registros feitos sobre a situação da mulher romana. Gênero sobre o qual  M.I. Finley[15] coloca:

Para começar, as mulheres não possuíam nomes individuais propriamente ditos até uma época relativamente tardia da história de Roma. (...) Salvo exceções relativamente sem importância, a mulher estava sujeita ao poder de um homem – do seu paterfamilias, do marido ou de algum guardião.

      Situação que parece permanecer como hegemônica pelo menos até o “apogeu do império”, conforme corroboram as análises de Carcopino[16].
      No que tange aos exempla de que lança mão pelo desrespeito com que se apresentam face ao ideal de uirtus percebemos que Lívio os demonstra a partir de uma estrutura narrativa que parece ter como objetivo maior provocar a indignação do leitor/romano da época augustana, alvo a que endereça sua escritura. Vejamos, a título de ilustração, a forma como constrói sua narrativa sobre a denúncia pública e punição do traidor, da batalha contra Fidenas, Métio Fufécio. Passagem em que Lívio articula, antagonicamente, os exemplos de Tulo Hostílio  e Métio Fufécio.

Tulo então proferiu as seguintes palavras: ‘romanos, se algum dia houve uma guerra em que tivestes razões especiais para primeiro render graças aos deuses imortais e depois a vossa própria coragem, esta foi sem dúvida a batalha de ontem. Tivestes de lutar não só contra o inimigo, mas também  - combate ainda maior e mais perigoso  - contra a traição e a perfídia de nossos aliados. Não vos enganeis. Foi sem minha ordem que os albanos subiram às montanhas. Não dei semelhante ordem mas julguei prudente fingi-lo para que, ignorando a traição, não perdêsseis o ardor do combate, e também para que o inimigo ao julgar-se batido pela retaguarda fosse tomado de pânico e debandasse. Reconheço que a culpa não é de todo dos albanos. Eles seguiram seu chefe como vós também teríeis feito se eu próprio vos ordenasse qualquer manobra. Métio foi o responsável por este movimento, o próprio Métio que maquinou esta guerra, Métio que rompeu a aliança entre Alba e


[14] TITO LÍVIO, LIVRO I, cap.14.
[15] FINLEY, M.I. Aspectos da antiguidade, São Paulo: Martins fontes, 1991, pp.152;153.
[16] CARCOPINO, Jérôme. Roma: no apogeu do império, São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Roma. Que alguém ouse reproduzir a façanha se eu não fizer deste homem um exemplo edificante para todos os mortais’.
Os centuriões armados cercaram Métio. (...) Tulo então prosseguiu: Métio Fufécio, se pudesses aprender ainda a respeitar os juramentos e os tratados, eu te pouparia a vida e seria eu próprio teu instrutor. Mas, como teu caráter é irrecuperável, que ao menos teu suplício ensine os homens a considerarem sagrados os compromissos que violasse. Assim como ontem dividias tua alma entre Fidenas e Roma, hoje é a vez de teu corpo ser também dividido[17].


     Tulo decide por um suplicio que provoca um horrível espetáculo, mandando amarrar os membros do traidor a duas quadrigas para em seguida serem distendidos e arrastados pelos cavalos que são conduzidos em direções opostas. Supliciamento que Lívio narra em detalhe, para em seguida arremeter uma observação que contribui para a compreensão do nível terrificante provocado pelo espetáculo: Foi a primeira e última vez que os romanos empregaram esse suplício que desprezava as leis da humanidade[18]. Pois, mesmo os castigos são apresentados por Lívio como devendo respeitar limites, evitando-se assim, via punição, o embrutecimento dos espíritos, de que pretende ser formador.
      Temos, pois, na longa passagem recortada da obra de Lívio, o uso dos dois movimentos fundamentais de sua construção narrativa apresentados pelos perfis de Tulo Hostílio e Métio Fufécio, um e outro, ideais miméticos conservados pela tradição romana que interessam a Lívio trazer à baila em seu exercício de rememoração.
      A escritura liviana nos permite acompanhar, didaticamente, as muitas façanhas de um ideal de ser romano que [Lívio] registra como tendo existido na Roma dos tempos da realeza e da República, mais contundentemente nesta segunda. Nas palavras de Grimal: “Liberta-se da história de Tito Lívio uma impressão de força e de vigor moral cujas lições permanecem válidas, à maneira de exemplos imperecíveis[19]”.
     Tito Lívio regressa a momentos da história romana em que, diante das situações postas, os romanos vão se autopreterir em favor da defesa de Roma. Movimento escriturístico que fala de um outro lugar para o qual desloca as memórias exemplares registradas pela tradição. Relação narrativa que repete argumentos dos historiadores que lhe antecederam, bem como, os questiona ou (des)constrói.  
     É sobre e para uma Roma que coloca acima das vontades individuais que Lívio fala e está a serviço enquanto partícipe do projeto restaurador do princeps, mas, antes de


[17] TITO LÍVIO, LIVRO I, cap. 28.
[18]TITO LÍVIO, LIVRO I, cap. 28.
[19] GRIMAL, Pierre. op.cit. 1997, p. 78.
tudo, edificador de uirtus. Fórmula que desenvolve a partir do estabelecimento de uma constante conexão entre as experiências que narra do passado e as possibilidades de verificação no presente, visto que se preocupa com as reminiscências que alcançam sua época, como se pode depreender nos excertos que segue:

Ainda hoje, quando se trata de votar leis ou nomear magistrados, os senadores conservam esse direito, que todavia constitui mera formalidade. São convocados a dar sua aprovação antes das eleições, quando ainda são conhecidos os resultados. (...)
Houve, assim, um ano de interregno entre dois reinados, donde o nome de interregno usado ainda em nossos dias[20].


     Procurando localizar, mapear e analisar os exempla apresentados por Tito Lívio enquanto modelos miméticos a que recorre na edificação cívica de sua época é que discutiremos a idéia de história no mundo antigo e as articulações que o historiador latino constrói com “O século de Augusto” em sua Ab urbe condita libri. É, portanto, de preocupações como as demonstradas até aqui que aprofundaremos o estudo da obra de Lívio.
   Compreendemos que o exercício analítico sobre a obra de Tito Lívio, dentro dos eixos problematizadores aqui apresentados, poderá contribuir, em nível específico, com as discussões sobre a escrita da história desse historiador latino, focando os deslocamentos, (re)empregos, manuseios que o mesmo promove no gênero discursivo e sua filiação a uma tradição que no ocidente os gregos tiveram o mérito de iniciar; com os estudos clássicos, (re)apresentando análises consolidadas e, ou questionadas, bem como, focalizando novos eixos de compreensão da obra; e em nível mais geral, com o pensar da história enquanto produção escrita.
     Compreendemos que tomar a historiografia antiga e seus expoentes como base de análise na contemporaneidade permitirá uma maior compreensão da atividade do historiador enquanto movimento que se efetiva a partir de considerandos espaciais e temporais, sendo essa clivada por interesses que se articulam com a sociedade e o lugar social de seus “fabricadores”.
      Em consonância com o que foi dito até aqui consideramos que pensar sobre a construção da memória do fazer historiográfico, como todo debate nesse campo, possibilita visualizar o universo de topoi explicativos ou, conceituando com Chartier[21]de representações construídas sobre a história enquanto prática e representação. Permitindo compreender a diversidade de caminhos percorridos pela história a partir de seus “fabricadores” antigos e modernos. 


[20] TITO LÍVIO, LIVRO I, cap. 17.
[21] CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações, trad.: Maria Manuela Galhardo, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

Artigo

HISTÓRIA E CIVISMO NA ROMA LIVIANA[1]


Marinalva Vilar de Lima*
Michelly Pereira de Sousa Cordão**

RESUMO
O artigo focaliza a maneira como Tito Lívio (sécs. I a.C. - I d.C.) articula política, civismo e cotidiano em sua Ab urbe condita libri, através da análise das  representações sociais que constrói. Discute a noção de história enquanto mimesis de um passado presentificado por Lívio nos primórdios do Império. Apresenta um Lívio construtor de uma memória da sociedade romana que retroage às épocas da realeza e da república romanas. Da ênfase conferida por Lívio a algumas dessas práticas (cerimônias e crenças religiosas, ritos funerários, relações familiares, valores sociais, disputas de poder, etc.), resultou nossa compreensão de que a política constitui o fio articulador de sua escritura. Conceito que em Lívio engloba as práticas cívicas/públicas realizadas pelos cives no espaço da urbs a partir do respeito aos valores da civitas.

PALAVRAS-CHAVES: Historiografia latina, Tito Lívio, História, exemplum.

            Para Tito Lívio, em nossa percepção, o exercício por excelência da política se constituía das práticas civis dos romanos, realizadas no interior da urbe romana. Distingue as ações (artes)[i] no espaço de sua pátria (domi)[ii] dos empreendimentos militares (militae)[iii], acrescentando-lhes as maneiras de viver (vitae), os costumes (mores) e os perfis dos homens (virae)[iv]; elementos que, juntos, teriam contribuído para a ascensão universal de Roma[v] e que são tomados por Lívio como eixos norteadores de sua escritura.
Escreve uma “história cívica” que assim pode ser designada por rememorar as coisas que aconteceram no universo da civitas[vi] romana e que foram empreendidas pelos cidadãos romanos (os cives). As narrativas dos empreendimentos militares são apresentadas por Lívio como extensão do que era promovido em Roma, com ênfase para o caráter dos romanos nas guerras, pois que os feitos “puros”, nelas empreendidos, não foram vistos por ele como tendo maior relevância
Idéia já presente em Cícero que ensina ao orador como ele deve usar a história em seus discursos: “(...) não se fale só dos feitos dos próprios homens, mas, com relação aos que se distinguem pela reputação e pelo nome, também da vida e do caráter de cada um” (CÍCERO apud HARTOG, 2001: 151).
            É a rememoração dos feitos de Roma, enquanto instância cívica, que enfeixa a escrita da história de Lívio. “História cívica” marcada pelas artes, pelos mores e pelas vitae dos cidadãos romanos por excelência. Seu interesse era, enfim, escrever uma história da vida e dos costumes dos romanos. Narrativa que focaliza as práticas da tradição e as atitudes que dessas se desviavam. Age como um historiador que necessita dá conta, tanto de exemplos a serem imitados, como a serem rejeitados e, assim, com um conjunto de quadros de ações exemplares é que Lívio preenche cada volumen de sua obra.
            Aqui, optamos pelo conceito de “civismo” liviano, em detrimento da noção de política, por percebê-lo mais condizente com o universo cultural de compreensão romana, visto que contempla as variadas representações sociais da Roma antiga que constituem a Ab urbe condita libri.
O civismo serve a Lívio como eixo articulador para as narrativas que constrói das práticas religiosas às decisões tomadas nas assembléias públicas; dos prantos em honra dos mortos aos comícios durante as eleições consulares. Do universo temático do corpus liviano, sobressaem uma multiplicidade de representações: práticas e crenças religiosas, atitudes diante da morte (ritos funerários), relações familiares, a exemplo do casamento, valores sociais (moralismo e patriotismo), imagens do feminino, disputas por poder. Elas evidenciam a preocupação do historiador em contemplar as experiências cívicas que constituíam o “cotidiano” do ambiente social do qual fazia parte e para quem endereçou sua obra: a aristocracia.
Escrita que projeta a edificação de modelos cívicos para os quais seus contemporâneos deveriam direcionar o olhar e a eles promover eco sonante no cenário da Roma augustana. Com esse intuito elabora uma obra que retroage aos tempos de fundação da cidade e vai até o início da era imperial, tomando os modelos de uirtus como fios de ligação. Eixo discursivo articulado com tamanha força retórica que leva o leitor moderno a perder de vista as perspectivas espaço-temporal a que destina grande importância.
É, por exemplo, em meio a um momento de grande turbulência da história romana, à época republicana, em que a ameaça do retorno eminente de mais um enfrentamento entre Roma e Véios, cidade com quem já há tempos era alimentada uma antiga contenda, que Lívio localiza a entrada em cena de Marco Fúrio Camilo. Situação discursiva em que Lívio articula, em um mesmo homem, grandeza de liderança e respeito à tradição religiosa no cumprimento de seu próprio destino e, por conseguinte, dos destinos de Véios e de Roma. Cidades cujos destinos se cruzam, necessariamente, pela via da oposição: “Assim se deu a queda de Véios, uma das mais opulentas cidades etruscas, cuja grandeza se evidenciou mesmo em sua última derrota” (TITO LÍVIO, livro V, cap. 18). Camilo, típico político que representa uma gens tradicional de Roma, nos é apresentado por Tito Lívio em muitos outros momentos de perturbações cívicas a que sua uirtus poderia vir a pôr fim. Em um desses momentos, ele também é apresentado em completa consonância com as atitudes de devoção das matronas, dadas a conhecer por Lívio como mantenedoras da purificação da cidade, conforme descrição que faz da situação e da participação dessas:

As mães de família, que o pânico generalizado arrancara de suas casas, faziam súplicas nos templos e dirigiam preces aos deuses para que afastassem a desgraça de suas casas, dos templos, das muralhas, e que fizessem recair sobre Véios aquela ameaça, uma vez que as cerimônias religiosas haviam sido restabelecidas em conformidade com os ritos, e os prodígios, expiados (TITO LÍVIO, livro V, cap. 18).

A edificação de valores que Lívio enxerga enquanto relegados ao desuso por seus contemporâneos é o que, ao nosso ver, tonifica as muitas narrativas que constrói em sua interferência no passado, fazendo (re)empregos e deslocamentos de histórias conservadas pela tradição na costura discursiva que cinge para seus contemporâneos. Discurso que resulta de cortes, escolhas e recusas de modelos de comportamentos e costumes, adotados pelos ancestrais romanos desses que vivem a Roma augustana.
É para os cidadãos de uma Roma expandida[vii], com graves dificuldades em manter os fios de ligação entre mundos extremamente distintos, que Lívio endereça uma escritura que pretende fazer eco, não apenas no centro do império, mas até onde se diga existir Roma.
A respeito dessa Roma da experiência escriturística e histórica de Tito Lívio, cabe lembrar do movimento restaurador enfeixado por Otávio Augusto (GRIMAL, 1997). Princeps que se impôs no cenário da história de Roma, pondo em prática um projeto político que marcou os mais distintos universos da vida romana do início do império. Sua habilidade política lhe permitiu visualizar a necessidade de estabelecer uma articulação entre mundo temporal e espiritual, chegando a creditar seu poder ao desígnio dos deuses.
Sobre a participação, ou identificação, de Tito Lívio com os rumos dados pela política augustana para a cidade, Grimal considera que: “Tito Lívio, sem dúvida, servia Augusto, mas apenas na medida em que este servia essa pátria profundamente amada” (GRIMAL, 1997: 78). Portanto, sonante com os ideais restauradores da época augustana, Lívio faz vir à tona uma Roma que se encontra encoberta, guardada em um passado que a tradição conservou. O discurso liviano apresenta-se sonante com a produção discursiva levada a efeito pelo círculo literário patrocinado pelo aristocrata Mecenas (GRIMAL, 1997).
É uma Roma cadaverizada que Tito Lívio pretende preencher com os tecidos, músculos, articulações, vasos, artérias e sangue que localiza como sobreviventes no mimetismo da tradição. Escritura que intenta, tanto quanto em um Heródoto, por exemplo, dar o estatuto de revificadora da experiência, ainda que de forma e para objetivos diferentes. Se para Heródoto há como preocupação maior com a elaboração de uma memória que impeça o esquecimento dos feitos do passado, para Lívio o esforço de mimetismo tem uma intencionalidade didático-pedagógica, visto que pretende trazer à cena experiências de romanos – constituidores das gentes tradicionais – que tiveram como preocupação maior a manutenção da civitas, colocando-a acima de seus interesses pessoais.
Retomando o exemplo de Marco Fúrio Camilo, Lívio o apresenta quase como um deus após a vitória ensejada sobre Véios. Todas as ordens sociais, em grande multidão, comemoravam seu esplendoroso triunfo:

A chegada do ditador foi festejada por todas as ordens, que lhe foram ao encontro, uma multidão como nunca se vira antes para qualquer de seus antecessores. O triunfo ultrapassou em esplendor tudo o que se costumava ver em tais manifestações. Quando Camilo entrou na cidade em seu carro puxado por cavalos brancos, todos os olhares se voltaram para ele. Não parecia um simples cidadão, nem mesmo um ser humano, dizia-se. Rivalizando com Júpiter e com o Sol, o ditador despertava os escrúpulos religiosos. Por isso, esse triunfo foi mais brilhante que bem acolhido.
Em seguida, Camilo designou um local no Aventino para o templo de Juno Rainha, consagrou o de Mater Matuta e, após ter concluído esses ritos sagrados e profanos, abdicou da ditadura (TITO LÍVIO, livro V, cap. 23).

Ideal personalístico que Lívio objetiva incutir em seus leitores, procurando encarnar modelos de civismo mimetizados pela tradição, bem como, cuidando para respeitá-la apenas naquilo que vem a corroborar sua intencionalidade.
A história, como experiência passível de ser recuperada em benefício de épocas póstumas, já anunciada por Isócrates (apud HARTOG, 2001: 14), é o que foi ensejado por Lívio, na medida em que retornou ao passado para trazer de lá experiências que pudessem ensinar, educar, remodelar as maneiras das pessoas se relacionarem com o presente. Percepção que, conforme análise de Hartog, remonta à experiência helênica – de Atenas - do declínio da polis, momento em que se passou a invocar o passado enquanto tempo a ser imitado. “É daí que o tema da história como fornecedora de exemplos irá tomar seu impulso duradouro” (HARTOG, 2001: 14).
Se Lívio anuncia seu ideário em uma Roma pós-crise, provocada pela guerra civil do século II a.C., que resultou na instalação do modelo político em que três cidadãos compartilhavam a experiência do governo (I triunvirato e II triunvirato), o faz dialogando com uma tradição helênica por ele deslocada em favor de seus intentos cívicos.
A título de síntese, considerando a obra de Lívio em seu conjunto, é possível perceber que ele estabeleceu uma escritura em que apresenta os primeiros anos da formação de Roma (o período dos reis), para em seguida apresentar à larga os anos de consolidação do modelo Institucional Romano (o período Republicano), seguidos da narrativa do início do império, até 9 a.C. A prosa liviana assume um caráter de anais, afastando-se dos prosadores que optavam por recortes mais pontuais e definidos, narrando uma guerra ou acontecimento específico. Sua narrativa do passado apresenta-se em clara conexão com o presente, articulação que reconhece e reivindica[viii].
É a imagem de uma Roma em um momento de decadência dos valores humanos, que Lívio enxerga enquanto espelho para onde o destino da cidade reflexionou. Situação que serve de palco para a polifonia interpretativa com que pretende admoestar seus contemporâneos. Ergue-se enquanto voz que pretende recolocar a cidade no destino que a ela cabe, através de uma escrita prenhe de exempla que lhe alcança e a que suas representações imprimem um efeito de anamnesis que põe ao alcance de seus contemporâneos. Se aos indivíduos (de épocas que distam no tempo) estabelece um lugar de importância, o faz na medida em que suas ações permitam-lhe – a Lívio - colocar em cena situações de que faz uso pedagógico, tanto por sua grandeza de realização, quanto por sua ruptura com o ideal de uirtus.
A escritura liviana nos permite acompanhar, didaticamente, as muitas façanhas de um ideal de ser romano que Lívio registra como tendo existido na Roma dos tempos da realeza e da República, mais contundentemente nesta segunda.
Tito Lívio regressa a momentos da história romana em que, diante das situações postas, os romanos se autopreterem em favor da defesa de Roma. Movimento escriturístico que fala de um outro lugar para o qual desloca as memórias exemplares registradas pela tradição. Relação narrativa que repete argumentos dos historiadores que lhe antecederam, bem como, os questiona, os (des)constrói.
É sobre e para uma Roma que coloca acima das vontades individuais que Lívio fala e está a serviço enquanto partícipe do projeto restaurador do princeps, mas, antes de tudo, edificador de uirtus, defensor da civitas. Fórmula que desenvolve a partir do estabelecimento de uma constante conexão entre as experiências que narra do passado e as possibilidades de verificação no presente, visto que se preocupa com as reminiscências que alcançam sua época, como se pode depreender nos excertos que seguem:

Ainda hoje, quando se trata de votar leis ou nomear magistrados, os senadores conservam esse direito, que todavia constitui mera formalidade. São convocados a dar sua aprovação antes das eleições, quando ainda são conhecidos os resultados. (...)
Houve, assim, um ano de interregno entre dois reinados, donde o nome de interregno usado ainda em nossos dias (TITO LÍVIO, livro I, cap. 17).

Tito Lívio traduz o passado para seus contemporâneos recorrendo a situações, costumes, lugares, práticas que afirmam os exempla a que recorre para a edificação cívica de sua época. Movimento escriturístico para que faz uso, mesmo recorrente, da dimensão religiosa. Evoca a lembrança de um tempo em que diz ser o universo cheio de sinais divinos. Um tempo em que as aves sobrevoavam os ares e seus gestos eram entendidos pelos humanos como uma mensagem dos deuses, a quem não poderiam desobedecer:

Ao chegarem ao Janículo, estava Lucumão na carruagem ao lado da mulher quando viu uma águia descer rapidamente e, adejando sobre sua cabeça, arrebatar-lhe o chapéu. A ave continuou a sobrevoar a carruagem com grandes gritos. Como se cumprisse uma missão divina, recolocou-o exatamente em sua cabeça, voando depois para as alturas (TITO LÍVIO, livro I, cap. 34).

            Tempo ainda em que os deuses apareciam em sonhos, anunciando sinais por meio dos quais enviavam suas mensagens aos homens:

Diz-se que enquanto dormiam os dois cônsules tiveram a mesma visão: um homem de estatura e imponência sobre-humanas apareceu e disse-lhes que um dos generais e um dos exércitos eram devidos aos deuses manes e à mãe Terra. O exército cujo general tivesse sacrificado aos manes as legiões inimigas e, em seguida, se sacrificado a si próprio, daria a vitória a seu povo e a sua pátria (TITO LÍVIO, livro VIII, cap. 6).

      Aviso a que os homens convinham seguir e, por isso, os dois cônsules decidem que o primeiro exército que fosse impulsionado a ceder pelo inimigo, faria o sacrifício, junto com seu comandante. Assim, Lívio faz a descrição do ritual, que antecede a morte do cônsul Décio em meio às fileiras inimigas. Ao repetir a fala do pontífice, Décio conversa com uma multidão de deuses que afloram do texto de Lívio:

O pontífice ordenou-lhe que vestisse a toga pretexta, e com a cabeça velada, a mão saindo debaixo da toga e levantada até o queixo, os pés sobre um dardo estendido no chão, dissesse: ‘Jano, Júpiter e Marte, pai dos romanos; Quirino e Belona e Lares, divindades Novensiles, deuses Indígetes, deuses que tendes em vossas mãos a sorte dos romanos e a de seus inimigos, e vós, deuses Manes, eu vos conjuro, eu vos suplico respeitosamente, vos peço a graça e nela confio de que concedais força e vitória ao povo romano dos quirites[ix], e insinueis nos inimigos do povo romano dos quirites o terror, o pânico e a morte. Como declarei por minhas palavras, sacrifico-me pela república, pelo exército, pelas legiões, pelos auxiliares do povo romano dos quirites e ofereço juntamente comigo as legiões e os auxiliares do inimigo aos deuses Manes e à Terra’ (TITO LÍVIO, livro VIII, cap. 9).

      Para Lívio, esse tipo de prática, em que um jovem romano se sacrificava pela república, estava praticamente fora do campo do possível em seu tempo. Em sua época, eram os vícios que caracterizavam as práticas dos romanos, contaminando o aspecto “verdadeiramente” virtuoso, que Lívio, considerando-o histórico, localizou nos tempos mais recuados da cidade. Afirma que a memória dos costumes desses tempos encontra-se esquecida em seu presente, constatação que lhe impulsiona a lutar contra seu completo esquecimento:

Embora haja desaparecido a lembrança [memoria] de nossos costumes civis e religiosos, pela preferência outorgada aos costumes novos e estrangeiros em detrimento das velhas instituições ancestrais, julguei que não me afastaria do tema de minha obra ao mencionar essas tradições nos próprios termos em que nos foram transmitidas e enunciadas (TITO LÍVIO, livro VIII, cap. 11).

Lívio rememora um período em que os senadores costumavam reunir a juventude romana e, com ela, formar imensos exércitos: “Hoje, em caso de invasão estrangeira, não seria fácil recrutar um exército igual àquele, nem sequer reunindo as forças do império romano que, apesar disso, o universo mal pode conter, de tal modo crescemos apenas naquilo que nos prejudica: riqueza e luxo” (TITO LÍVIO, livro VII, cap. 25). Era um tempo em que todos celebravam com alegria as vitórias dos romanos, direcionando ações de graças aos deuses e respeitando os decretos do senado (TITO LÍVIO, livro X, cap. 21).
No entanto, Lívio admite que mesmo nos primeiros séculos da república já havia manipulação dos auspícios para se justificar falsamente a guerra:

(...) embora os frangos não comessem, o pulário ousou mentir sobre os auspícios e comunicou ao cônsul que os frangos mostravam um apetite muito favorável. O cônsul, contente, anuncia publicamente que os auspícios são excelentes, que os deuses aprovam essa luta e faz arvorar o sinal do combate (TITO LÍVIO, livro X, cap. 40).

      Contudo, nesse mesmo período ainda era possível encontrar cônsules, cuja honestidade informava suas práticas de tal modo que chegavam a castigar quem manipulasse os augúrios, embora eles pudessem ser beneficiados com isso. É o exemplum de Lúcio Papírio Cursor que, sendo informado sobre tal fato, ordena que os pulários, responsáveis pela leitura dos augúrios retirados dos frangos, fossem dispostos na primeira fila da batalha. Assim, provavelmente morreriam e a ira divina seria a culpada e não o cônsul: “Antes que se erguesse o grito de guerra e os adversários corressem um para o outro, um dardo lançado ao acaso atingiu um dos pulários, que caiu na primeira fila” (TITO LÍVIO, livro X, cap. 40). Castigo necessário para os que descumpriam o ideal da uirtus e que aparece na narrativa como sendo obra de um Acaso que também age pro pátria.
Cada vez mais, a harmonia dos tempos de outrora vai se esvaindo por completo. Por defendê-la como eixo de orientação para a civitas de seu tempo, é que Lívio constrói a memória do que lhe é inverso. Assim, torna claro para seus leitores que esses atos do passado não devem ser imitados, pois que foram eles que, com o passar dos tempos, conduziram Roma à situação terrificante do séc. I a.C. que, por sua vez, estaria sendo suavizada pela política levada a cabo por Augusto. Lívio elabora uma leitura do passado em diálogo com um tempo marcado por fortes disputas de poder e, ao mesmo tempo, se propõe a influenciá-lo, acalmando-o a partir de exemplos a serem rejeitados.
Os prazeres, resultado do vício que eram as paixões, deveriam ser reprimidos, segundo Lívio, cabendo ao homem conseguir se conter em face da libido. As ações públicas pro pátria serviriam como elemento de auxílio para que os romanos refreassem seus desejos e vícios. Daí sua preocupação em construir uma memória para elas na contraposição com esses.
Lívio narrou tanto as guerras externas, promovidas pelos romanos, quanto suas ações civis; no entanto, a essas últimas atribuiu maior relevância, por percebê-las como artérias de sustentação da projeção de Roma para além da Península itálica. Compreendemos que considera o exercício das virtudes cívicas ou o seu desvirtuamento enquanto balizas da grandeza/decadência de Roma. Disso resultando que a defesa da pátria passava, prioritariamente, pela manutenção da civitas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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FONTES
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TITO LÍVIO. Historia de Roma desde su fundación. Trad.: José Antônio Villar Vidal. Madrid-ES: Editorial Gredos, 1990 (Biblioteca Clásica Gredos).

Title,
Abstract
Keywords


[1] Artigo publicado em Revista História. Coordenação de Pós-Graduação em História ... 14409-160 - Franca – SP. www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101...script...


* Unidade Acadêmica de História e Geografia, Centro de Humanidades, Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. CEP: 58.109-900, Campina Grande, PB, Brasil, iramlima@ig.com.br.
** Unidade Acadêmica de História e Geografia, Centro de Humanidades, Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. CEP: 58.109-900, Campina Grande, PB, Brasil, michellycordao@gmail.com.
[i] Plural de ars: modo se ser ou de agir. Há outros significados, mas aqui, nos interessou apenas esse por estar de acordo com o que entendemos querer dizer Lívio ao usar o termo. Veja: ERNOUT, A; MEILLET, A. Dictionnaire étymologique de la langue latine: histoire des mots. Paris: Librairie C. Klincksieck, 1932, p. 72.
[ii] Plural de domus: “casa”. Por oposição à peregri, foris e militae. Simboliza a família. Dos derivados e compostos, tem-se: domesticus: “doméstico, familiar”. De onde: “privado, nacional”. (Idem, ibidem, p. 270). Trata-se, no texto de Lívio, das ações realizadas no espaço da cidade por excelência: Roma. Embora, ao incorporar novos territórios ao Estado romano, os estadistas atribuíssem a seus homens o status de cidadãos, não significa que esses fossem considerados “homens romanos” de fato. Pois que, para sê-lo, exigia-se toda uma formação cívica específica ao espaço de Roma. Formação que se baseava na prática das virtudes tradicionais e dos deveres que conferiam a um homem ser, de fato, chamado civis [membro livre de uma cidade, a qual pertence por sua origem ou por adoção, cidadão livre (Idem, ibidem, p. 185). Sobre os deveres tipicamente romanos, veja: CÍCERO, Marco Túlio. Dos deveres. Trad.: Angélica Chiapeta. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
[iii] Plural de milita (“serviço militar”, de onde: “campanha”), termo que deriva de miles, “soldado” (ERNOUT, A; MEILLET, A. op.cit. p. 582). No caso do texto de Lívio, trata-se das ações empreendidas no exterior do espaço da urbs.
[iv] Plural de uir: “homem”, por oposição à mulher. Exprime as qualidades viris ou masculinas do homem. Por seqüência: marido, homem digno desse nome, herói. Tomou o sentido de soldado, pois que as atividades na guerra eram exclusivas aos homens (Idem, ibidem, p. 1.069).
[v] TITO LÍVIO. História de Roma. Trad.: Paulo Matos Peixoto. São Paulo: Paumape, 1989, prefácio, p. 18. Ressalte-se que todas as citações da obra de Tito Lívio foram retiradas da tradução de Paulo Matos Peixoto. Além dessa tradução, foram consultados os textos da Biblioteca Gredos e Belles Lettres.
[vi] Derivado abstrato de civis, “condição de cidadão”, “conjunto de cidadãos”. Por seqüência, “cerco de um governo, cidade, Estado”. Daí, com a passagem ao sentido concreto, sinônimo de urbs, por oposição ao campo. Traduz a pólis e a politéia. Na língua de direito, civicus (civil, cívico) opõe-se a militaris. Assim, urbs se refere ao espaço concreto de Roma, ao passo que civitas, tem a ver com os elementos “abstratos” daquela: suas leis e costumes. São a esses que Lívio dá ênfase em sua obra, valorizando, pois, a civitas. Veja: ERNOUT, A; MEILLET, A. op.cit. p. 185.
[vii] Acerca dos movimentos de expansão territorial, das conquistas realizadas pelos romanos e para outras informações sobre a sociedade romana de fins da república e da época imperial, aqui veiculadas, consultar: PETIT, P. A paz romana. Trad.: João Pedro Mendes, São Paulo: Pioneira; EDUSP, 1989, 350 p.; CORASSIN, M. L. Sociedade e política na Roma Antiga. São Paulo: Atual, 2001, 128 p.; CANFORA, L. Júlio César: o ditador democrático. Trad: Antônio da Silveira Mendonça, São Paulo: Estação liberdade, 2002; GRIMAL, P. A civilização romana. Trad.: Isabel St. Aubyn, Lisboa: Edições 70, 1993, 354 p.; GRIMAL, P. O século de augusto, trad.: Rui Miguel O. Duarte, Lisboa: Edições 70, 1997, 111 p.
[viii] Idem, ibidem, p.18.
[ix] Lívio assim designa os cidadãos por excelência romanos, para distingui-los dos estrangeiros: os plebeus. 

Indicacões de livros e filmes

  • ÁRIES: Sobre a história da morte no Ocidente
  • BOSI: Memórias de velhos
  • CHÂTELET, François. Et.all. História das idéias políticas, Trad.: Carlos Nelson Coutinho, Rio de Janeiro: Zahar, 1994. 399p.
  • CLAUDE MOSSÉ: As instituições gregas
  • ELIADE: Mito e realidade
  • FINLEY, Moses I. Os gregos antigos, Trad.: Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 1988. 178p.
  • GAZOLLA, Rachel. Para não ler ingenuamente uma tragédia grega, São Paulo: Edições Loyola, 2001. (Coleção Leituras filosóficas). 139p.
  • HARTOG:
  • HOMERO. A Ilíada, trad.: Octávio Mendes Cajado, São Paulo: Círculo do Livro, s/d. 376p.
  • VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego, Trad.: Ísis Borges B. da Fonseca, 9 ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. 95p.
  • LE GOFF: História e memória
  • MURARI:
  • POLLACK: Memória e esquecimento
  • SANTO AGOSTINHO: A cidade de Deus
  • VIRGILIO: Eneida, trad.: Tassilo Orpheu Spalding, São Paulo: Cultrix, 1981. 280p.
  • VOLVELLE: Imagens e imaginário na história